O Diário do Caminho Dia#05 | Caminho Francês

Não dormi bem essa noite. Muito ronco no quarto. Estava doida para levantar e começar a caminhar. Muito melhor do que ficar rolando na cama. Arrumei minhas coisas com cuidado para não acordar os outros peregrinos. Esperei pelo novo grupo de amigos na porta do albergue. Combinamos de sair todos juntos. Éramos um grupo grande hoje. Estávamos animados. Alegres. Muita energia. Caminhamos alguns quilômetros no escuro. Vimos o nascer do sol. Lindo! Chegamos no primeiro vilarejo. Paramos para comer. Estávamos todos famintos. Pedi uma tortilha como sempre e um café quente. Croissant de chocolate de sobremesa. Quanta alegria estar na companhia de todos os primeiros amigos que fiz no caminho! Parecíamos amigos de longa data. Tudo é mais intenso por aqui. Laços fortes. Conexão. Sintonia. Energia. Após meia hora de confraternização no café da manhã e muita risada, continuamos andando. Uma parte do grupo se dispersou pelo caminho. Nos separamos. De repente, nos deparamos com a tão esperada Fonte de Vinho que tem no Caminho. É uma fonte onde pode-se beber vinho à vontade. Ainda estava de manhã. Era cedo. Tomei apenas um gole para celebrar com os novos amigos. Tiramos fotos. Continuamos. A paisagem era bonita. Encontrei um balanço. Sentei. Me embalei. Me senti livre. Esse é o meu lado de menina. Segui em frente. Parei mais adiante. Bebi água e comi. Estava pronta pra continuar. Agora, éramos só quatro. Avistei o que parecia ser uma pequena casa. Algo me atraiu para aquele lugar. Parei. Olhei. Era aberto. Tinha uma escadaria para baixo e água no fundo. Uma espécie de aquário. Alguns peixes. Me lembrou aqueles chafarizes onde as pessoas jogam moedas e fazem um pedido. Não queria jogar moeda. Queria deixar uma das duas pedras que trouxe do Brasil naquele lugar. Me arrepiei. Era alí onde ficaria o meu perdão. Abri a mochila. Peguei a pedra. A segurei firme na palma da mão. Pensei em tudo que gostaria de dizer para uma pessoa que eu precisava perdoar. Conversei com meus pensamentos. Pedi para que Deus enviasse meu perdão para o coração dessa pessoa. Disse em voz alta “eu te perdôo” e joguei a pedra na água. Senti que toda minha dor foi embora naquele som da pedra ao tocar a água. Pronto. Acabou. A dor ficou lá no fundo. Afogada pra sempre. Chega. Estava na hora de sarar a ferida.

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